sábado, 27 de junho de 2015

NÃO É FÁCIL SER UM ARTISTA NA IGREJA – POR RORY NOLAND


Na escola de música, estudei composição com um compositor renomado que eu admirava e respeitava profundamente. Ele sabia que eu estava envolvido com o ministério de música em minha igreja, mas raramente conversávamos sobre isso. Exceto em uma ocasião, por um breve momento, perto do fim do curso.

Durante uma de minhas aulas, algumas partituras caíram da minha pasta. Enquanto eu as recolhia, meu professor rapidamente percebeu que aquelas músicas não lhe eram conhecidas.

Quando expliquei que eram canções com as quais eu estava trabalhando na igreja, ele fez uma careta e disse: “Pensei que você já tivesse tirado essa ‘coisa de igreja’ da cabeça”. Encolhi meus ombros porque não sabia o que dizer. Ele então me perguntou: “Por que alguém perderia seu tempo fazendo música de igreja?”.

Foi uma pergunta interessante, não foi? Eu a tenho perguntado a mim mesmo por muitos anos. Por que um artista optaria por partilhar seus talentos com a igreja? Afinal, em se tratando de excelência ou inovação nas artes, este não é, na maioria das vezes, o primeiro lugar cogitado pelas pessoas.
Não é por certo o lugar onde a maioria dos artistas pensa quando sonha em expressar seu talento. Na verdade, muitos artistas têm medo da igreja.



Eles temem que ela possa podá-los ou limitá-los e se preocupam com a possibilidade de que ela não os aceite ou compreenda. Também têm medo de não se adaptarem a ela. Artistas têm a tendência de liberdade, de não se amoldarem, e, encaremos os fatos — essas características não são bem-vindas na maioria das igrejas.
Um dos exemplos mais trágicos de um artista que não combinou com o ambiente eclesiástico é o do pintor holandês Vincent Van Gogh. Quando jovem Van Gogh desejou desesperadamente seguir os passos do seu pai que era pastor.

Ele estudou para isso, mas não era bom aluno nem falava bem em público — um problema sério para um bom pregador em potencial. Por causa de sua dedicação, uma organização protestante ecumênica deu a ele uma oportunidade de servir como evangelista leigo em uma cidade pobre, que possuía minas de carvão, ao sul da Bélgica.

Van Gogh ficou profundamente sensibilizado com a situação das pessoas que viviam ali. Começou a fazer desenhos que descreviam as tarefas cotidianas, o trabalho nas minas e a desesperança estampada no rosto das pessoas. Embora os superiores de Van Gogh expressassem admiração pelo modo como conduzia seu rebanho, eles cancelaram sua indicação ao pastorado após seis meses mencionando suas deficiências de comunicação com o público.

Ele tentou continuar sem o apoio, mas em pouco tempo passou a viver em pobreza quase que absoluta. Amargurado e desapontado, Van Gogh desistiu do sonho de se tornar pastor e nunca mais colocou os pés na igreja novamente. Passou o resto de sua vida sob extrema desordem emocional, relacional e financeira, o que o levou ao suicídio aos 37 anos de idade.

Em 1889, um ano antes de morrer, Vincent Van Gogh pintou Noite Estrelada. Muitos consideram esse quadro como sua obra-de-arte mais espiritual. Para Van Gogh, o céu noturno simbolizava a presença de Deus, e o arbusto de cipreste em destaque parece estar alcançando o céu com seu zelo ardente. Se você olhar atentamente para as construções ao fundo, no entanto, notará que todas elas possuem uma luz que vem das janelas, exceto uma — a igreja. Além disso, de um ponto de vista arquitetônico, a torre em estilo gótico holandês, semelhante à da igreja onde Van Gogh cresceu, não combina com a França rural que a pintura representa.


Em outro quadro intitulado Igreja de Auvers (1890), uma catedral é reproduzida em um dia ensolarado. Mas a igreja está escura e também parece não ter portas. Os sentimentos de Van Gogh acerca da igreja são óbvios — um lugar frio, sombrio e intolerante.


É quase impossível não pensar em como a vida de Van Gogh teria sido diferente se a igreja o tivesse encorajado a ser o que Deus obviamente o criou para ser — um artista.
Eu gostaria que um discípulo de Jesus, sensível e prestativo, tivesse chamado Van Gogh em um canto e lhe dito: “Ei, Vince! Talvez pregar não seja o seu negócio. Mas Deus lhe deu essa incrível habilidade para pintar e desenhar. Então, por que não servir a Deus com a sua arte em vez de tentar ser um pregador?”.
Penso que isso poderia de fato acontecer hoje quando as artes desempenham um papel cada vez mais importante no ministério da igreja. Um número crescente de artistas está-se envolvendo e experimentando as recompensas do ministério. Por outro lado, estamos também descobrindo quão difícil o trabalho na igreja pode ser. Sempre que falo em uma conferência, um artista me chama do lado em algum intervalo e me pede conselhos para lidar com situações de conflito na igreja. Em algum momento da conversa a pessoa diz algo do tipo:
“Não sei quanto ainda consigo aguentar. Se as coisas não mudarem, não sei se poderei sobreviver a mais um ano”. Recebo muitos pedidos de ajuda semelhantes de líderes e voluntários por meio de cartas, e-mails e ligações telefônicas. Eles estão sobrecarregados com os desafios, esgotados com os conflitos e desencorajados pelas adversidades presentes no trabalho ministerial na igreja.

* Que Deus possa ajudar e capacitar cada artista para desenvolver e usar sua arte para glória de Deus. Que a igreja possa saber tratar com seus artistas e acompanhá-los nas suas fraquezas e ajudá-los nas suas ações para que a estejam produzindo com as verdadeiras motivações: Exaltar através de seu chamado, de sua arte o Rei dos reis.

Artes para o Rei - Porque dEle e por Ele e para Ele são todas as coisas!

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